Mail sobre os gilets jaunes

Plínio W. PRADO Jr – 27/12/2018

(version en français ici)

O que eu posso fazer de imediato aqui, dada a sobrecarga de trabalho insensata, é responder brevemente para você [sobre a questão : « O que pensar dos gilets jaunes ? »], com cópia para os nossos e as nossas colegas.

Isto é, dizer-lhe, numa palavra, o que me parece estar em jogo aqui com o movimento dos gilets jaunes — o que, de um ponto de vista mais geral, não é sem relação com a situação brasileira também.

Aguardando a oportunidade de fazer, num outro contexto, uma análise um pouco mais detalhada.

1. Não acompanhei o que a mídia anda contando sobre o movimento dos gilets jaunes aí no Brasil. Mas suponho ao menos que tenha ficado clara para todos que o problema dos gilets jaunes não é nem nunca foi o da nova taxa sobre o combustível, dita « ecológica » (afora o fato que, como de regra, é no bolso do povo que pesa a conta da ecologia, e não no dos mais ricos, que são também os que mais poluem o planeta. Cf. Hervé Kempf, Comment les riches détruisent la planète).

A taxa sobre o combustível foi apenas a ocasião, a gota d’água ou o estopim ; como testemunha o símbolo fortuito do movimento, o colete amarelo fluorescente, colete de alta visibilidade que faz parte do equipamento de segurança de todo automobilista. O problema do movimento é mais geral, mais estrutural. Ele se traduz como problema do poder aquisitivo, claro (o famoso « empobrecimento das classes médias », que é um problema mundial) ; mas ele não se reduz tampouco exatamente a isso.

O que está realmente em jogo é antes uma cólera geral contra a desigualdade, que só tem se agravado nestas últimas de décadas. Desigualdade que estrutura nossas sociedades neoliberais. Última expressão desse agravamento na França, a desigualdade fiscal : o gesto escandoloso, símbolo do governo Macron, de suprimir o imposto sobre as grandes fortunas (ISF).

Indice, entre outros, de que esse desafio é estrutural : a mensagem que os gilets jaunes enviaram ao presidente da República : o que está em jogo com o nosso movimento não é  (entenda-se : no atual quadro das instituições políticas em vigor, ditas « democráticas »). Trata-se do intoleravel, e o intoleravel não é quantificavel em cifras nem avaliavel em números. Posição que sinaliza claramente para um além do sistema político atual.

2. Para lá do que eles estão dizendo, os gilets jaunes, enquanto sujeito (de enunciação), colocam um outro problema para o governo francês e para a mídia (como se sabe, tornou-se praticamente impossível doravante, em nossas sociedades, dissociar políticos, patrões da grande mídia e seus jornalistas).

O problema é que, em sua heterogeneidade, os gilets jaunes é um movimento composto sobretudo de « braves gens », como se diz em francês, de pessoas trabalhadoras e honestas, « gente boa », bons pais e mães de família, que simplesmente não aguentam mais a injustiça social, estrutural, que o poder politico assume sem complexo, sem vergonha doravante. (Como se sabe, por toda a parte, os super-ricos e seus mandatários, os políticos, abandonaram o mundo e todo projeto de um mundo comum.)

Essas « braves gens » compreenderam então que a « democracia representativa » é uma vasto engodo e hoje se revoltam.

Os gilets jaunes foram comparados com vários movimentos historicos, em particular com os sans-culottes. Eles são

num certo sentido os Michal Kohlhaas do destino « democrático » contemporâneo, que decidiram hoje « ir buscar Macron no palácio do Elysée ». (Sem chefe, nem direção, eles deram mostra de um grande conhecimento tático de luta nas ruas contra as forças policiais.

3. Não se trata portanto de « radicais » ; apesar de governo-e-mídia tentarem assimilá-los, reduzi-los por todos os meios aos « radicalismos » os mais diversos para melhor combatê-los — da extrema direita à extrema esquerda, passando pela simples deliquência —, mas sem sucesso. Ao contrário, até algumas semanas atrás, cerca de dois terços ao menos dos Franceses apoiava os gilets jaunes» (há uma semana atrás, eles ainda eram 70%).

Não se trata tampouco da mesma população-tipo que, nos EUA, votou Donald Trump, ao contrário do que este próprio pretendeu, e como afirmou em seguida Steve Bannon, mistificador de serviço das oligarquias ; e como reiteriou ainda a internacional das extremas direitas européias, desejosa de recuperar o movimento.

Parece-me mais conveniente e interessante situar os gilets jaunes em contraste com a subjetividade-tipo das classes médias ocidentais. Nós sabemos que essas classes médias, que representam cerca de 40% da população mundial, lutam penosamente para repartir aproximativemente 12% da riqueza mundial que lhe é deixada pela oligarquia dos 10% mais ricos do mundo. O infortúnio que elas temem, mais do que tudo, a sua angústia, é de virem a ser rebaixadas ao nível dos que não têm praticamente nada (50% da população mundial). Mas, em regra geral, ao invés de se voltarem contra o ganho exorbitante dos que já têm tudo, elas se voltam contra os que estão abaixo delas, como para bem marcar a sua diferença : os pobres, migrantes, sem-teto, africanos, estrangeiros, párias, etc. Elas tendem a constituir assim uma massa predisposta a ser conformável discursivamente à xenofobia, à aporofobia, à fobia do que é outro em geral.

Mas eis que, desta vez, as « braves gens » se voltam e revoltam, não contra os que estão abaixo, mas contra os que estão acima : um governo que se apresenta insolentemente como sendo, sem complexos, o governo dos ricos.

4. Trata-se então de uma tomada de palavra, e de decisão de agir, inesperada e inclassificavel, da parte de pessoas que habitualmente não tomam a palavra nem intervêm no espaço público. Logo, um verdadeiro evento, no sentido o mais forte do termo : uma interrupção imprevista da rotina política, que é de fato o começo da verdadeira vida política, o nascimento ou a revivificação da política — que sai de sua letargia institucional habitual, onde ela é regularmente o monopólio dos políticos profissionais da gestão do Estado.

5. E é aí que os gilets jaunes, « braves gens», vão descobrir o que as populações das banlieues, da periferia, os pobres, imigrantes e seus descendentes, mas também os estudantes universitários e secundaristas, conhecem depois de muito tempo, isto é : a brutalidade da violência da polícia nacional francesa, que está em « progresso » contínuo. A polícia francesa usou estas semanas, contra a população, granadas e armas de guerra ; uma dezena de gilets jaunes perdeu um olho em tiros de flashball, houve dez mortos, um em coma e centenas de manifestantes feridos, vários mutilados — de mutilações de guerra. (Para um inventário da violência, ver : http://contropiano.org/news/internazionale-news/2018/12/25/francia-la-paura-ha-cambiato-di-campo-0110940.)

Essa violência sem precedente está sendo denunciada por Amnesty International e várias outras organizações nao governamentais. O que está em jogo, em causa : é a liberdade de manifestar, conquistada de longa data pelas democracias ocidentais.

A máscara « democrática » está então caindo : em época de crise, e a fim de continuar assim mesmo a corrida à otimização do desempenho e do lucro, o neoliberalismo mostra a sua verdadeira cara : a violência física, a força bruta visando o corpo e portanto a vida. (E nós sabemos hoje também que o neoliberalismo não hesita em encorajar a fascização das sociedades e dos Estados.)

6. Várias questões restam naturalmente pendentes.

– É possível afirmar que o movimento desenha os contornos de uma nova figura da subjetividade, heterogêna às subjetividades-tipo engendradas pelo sistema neoliberal, a começar pela da classe média « clássica » ?

– É legítimo dizer que, depois da repressão e das baixas que ela causou, depois das gesticulações de « negociação » da parte do governo, o movimento acabou ? Nada é mais incerto. No momento em que rascunho estas notas (27/12), os gilets jaunes cogitam uma próxima manifestação, sábado 29/12, o VII Ato. Apesar da queda da mobilização neste período de fim de ano. E em particular, o movimento já começou a ressurgir, e ressurgirá com certeza amanhã, em 2019, nas revoltas dos estudantes universitários e dos alunos do secundário — já chamados de « filhos dos gilets jaunes » — contra a seleção administrativa e economica imposta pelas reformas ministeriais.

– Para lá do embuste da « democracia representativa », monopolizada pelos profissionais da gestão, através dos quais o sistema gira em torno de si e de sua reprodução, o grande desafio, visado pela revolta como o seu horizonte, é : inventar formas de exitência coletiva outras, autonomas, que sejam aptas a durar no tempo.

7. Uma última observação. A grande questão, que emerge por toda a parte nesta segunda década do século XXI, é a da desigualdade que estrutura nossas sociedades. Relembremos de novo os números aterradores da Oxfam.

2018 : o 1% mais rico do planeta embolsou 82% da riqueza criada no ano passado ; a metade mais pobre da humanidade não viu uma migalha. Na Europa, os mais ricos ganham em média 29 vezes mais do que os 50% mais pobres. No Brasil, o 1% dos super-ricos ganha 100 vezes mais do que os 50% mais pobres. Quem ganha salário mínimo aí teria de trabalhar 19 anos para obter o equivalente do que um Brasileiro, entre os 10% mais ricos, ganha em um mês.

É desnecessário fazer um desenho : aí reside o mal original, a violência primeira e a injustiça radical, a fonte de todas as violências.

A « corrupção », de que tanto se falou no Brasil estes últimos anos, é apenas um dos nomes da desigualdade. É o ganho « ilegal ». Mas e o lucro, e portanto a desigualdade, « legais » ? A desigualdade dos privilégios exorbitantes e dos paraísos fiscais das grandes multinacionais ? A do 1% da humanidade que confiscou para si só 82% da riqueza criada em um ano ? A dos 5% mais ricos do Brasil que ganham a mesma renda que os restantes 95% ?

Quando trataremos de frente dessa corrupção estrutural ? Se contentar em fazer um alarido exclusivamente contra a « corrupção » no primeiro sentido, é encobrir e ocultar a violência primeira desta desigualdade estrutural. Esse ocultamento é uma armadilha fatal. Em nome dele, em nome da « cruzada contra a corrupção », a população acaba esquecendo o mal original e elegendo o primeiro aventureiro que aparece, o qual não é outro senão mais um abjeto vassalo a serviço das oligarquias nacionais e internacionais, assegurando a perpetuação da desigualdade, o seu agravamento.

Um grande mérito dos gilets jaunes me parece ser o de colocar hoje, tão claramente quanto possível, o problema crucial da desigualdade estrutural.

Abraços,

Um bom fim de ano,

Plínio Prado

Post-scriptum.

Parece que, no Brasil, os gilets jaunes foram comparados às manifestações locais de junho de 2013; ambos seriam, então, movimentos inspirados pela extrema direita e apropriadas por ela. Isso me parece ser um erro (o mesmo ao qual induzem as declarações de Bannon, Le Pen e companhia).

Minha impressão é de que a nossa classe média (alta, média e baixa) está muito, mas muito longe, de ter a resolução da revolta contra a oligarquia econômica como tal, que é a meu ver o componente essencial do movimento dos gilets jaunes

Se deixarmos de lado o cinismo indecente das pessoas as mais ricas ― que devem ser capazes de entender que não há nada mais baixo do que o bolsonarisme, que é sinônimo do fracasso de uma sociedade, mas que ao mesmo tempo só pensam em seus interesses e quanto ao Brasil, que se dane ― o resto, foi instrumentalizado durante estes cinco anos de uma maneira gigantesca e vergonhosa. Os gilets jaunes, ao contrário, que puderam ser comparados com os sans-culottes, podem referir-se a uma tradição originalmente revolucionária e lembrar que a atual República francesa traiu os seus ideais. Nas manifestações, essa memória está presente nas faixas e graffiti : « 1789-2018 ».

Plínio W. PRADO Jr

Docteur d’État – Maître de conférences directeur des recherches

Département de Philosophie | Université de Paris 8 – Vincennes à Saint Denis

Laboratoire Logiques contemporaines de la Philosophie – EA 4008

Site Academia : Plínio PRADO | Universite Paris-8, France – Academia.edu

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